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Agora, o Alva vai apressado

O"meu" rio vai com pressa de chegar à foz e alarga as fronteiras do território que lhe pertence. Na imagem, há sinais de duas  cheias, paus e folhas amontoadas, como se fossem trilhos conhecidos de outros outonos e agora revividos pela força do pensamento  de quem tem do Alva a memória de outras barrigas, maiores do que estes sinais na erva molhada; tempos houve em que as águas rasgavam as margens - ficavam  os sulcos como sinais  de terra lavrada...

Sob a batuta do rio Alva

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Choveu em demasia e o leito do rio Alva  não suportou o aumento do caudal. Com as águas revoltas e a transbordar vieram os detritos: pedaços de árvores e árvores inteiras, arrancadas pela raiz, lixo renascido da incúria humana, e a imensidão de água tingida de negro. Tenho à mão dois locais de fácil acesso para olhar o "meu" rio: o Urtigal e a ponte que junta as margens de  duas freguesias: Barril de Alva e Vila Cova de Alva. Durante a calmaria da tarde de sábado, visitei ambos.  No Urtigal, a água, quando é muita, desmultiplica os sons, aparentemente de forma distinta, consoante os solavancos da corrida que tem a meta no Mondego: primeiro, no caneiro, depois, junto à fonte, quando dobra a altura das pedras que se amontoam na margem direita, a estereofonia é tão real como se os ruidos fossem  misturados numa consola  multipistas a gosto de quem manipula os botões; na ponte, o rio é  manso, embora se perceba  que vai apressado, de barriga cheia...   Na ponte, visto de cima, o…

Viajar à boleia

Mesmo por cima da minha cabeça, mas  a muitos metros de altura, uns quantos aviões, diariamente,  insistem em percorrer os mesmos caminhos, entre a partida e a chegada; eu estou no "meio"  da  provocação  dos meus sonhos: Açores e Maputo são os  "próximos destinos", mas ninguém os adivinha, e como não tenho maneira de me fazer ouvir daqui de baixo, os aviões nem "param" para a boleia que lhes peço,  dedo grande no ar...


Urtigal: à imagem da minha infância

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Omeu sítio, Barril de Alva, tem recantos que, fosse eu poeta, havia de imortalizar em palavras nunca somadas em verso, com ou sem rima - bastaria que, em mim, houvesse engenho e arte para transformar o belo do pensamento, impossível de publicar... O Urtigal exerce tal fascínio que me transporta aos silêncios de quando me sinto solitário, voluntariamente abandonado. Aqui, no Urtigal, nem solidão, nem abandono: basta o rio que me remete para curtas memórias da infância, feitas de fantasmas e medos. 
O rio, o "meu rio", sempre de barriga cheia, nesse tempo, tinha barulhos inexplicáveis. É por isso que "pinto" o caneiro" e construo a "mesa do pensamento" à imagem da minha infância. Possivelmente, contínuo criança...

Coimbra "nunca vista"

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Imagine-se um "puto", após dois exames semelhantes, da quarta classe e da admissão ao liceu, ir de abalada até Coimbra sem nunca ter saído da aldeia; isto é: os meus  passeios, de tão curtos no tempo, não proporcionavam grandes conhecimentos das coisas  e dos lugares- passeios desses  contabilizei vários, incluindo um a Viana do Castelo, por ocasião das Festas do Senhor da Agonia. 
E tinha ido a Lisboa em tempo indeterminado na minha memória... Coimbra  era um  sonho do meu tamanho, pequeno, sem dúvida, mas não deixava de ter a importância da ideia que alguns companheiros das brincadeiras do arco, do pião ou dos futebois no largo da escola, fizeram florir enquanto crescia na idade. Coimbra, aqui tão perto, enfim, era o tudo do muito que sabia existir pela leitura das brochuras publicitárias.  Coimbra era a Universidade, o liceu, a escola técnica - destinos certos para quem, com posses económicas, procurava  fontes do conhecimento. E havia o Seminário, que transformava meninos e…

Diligência para Coimbra com retorno

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Subsídio para a história dos transportes públicos de Arganil
        O meu amigo Abel Ventura Fernandes, através do  Facebook, comentou a imagem que captei algures em Arganil e agora reproduzo. Pela importância do relato, destaco-o com a devida vénia.


Embora sumido, um pequeno dístico fixo no veículo atesta a sua anterior propriedade
"Esta charrete faz parte da história dos transportes públicos, de que Arganil foi pioneira, através da empresa (salvo erro) Eduardo Jorge, mais tarde Empresa Automobilística Arganilense, empresa desaparecida, por ter sido comprada por uma outra empresa dos lados de Pedrógão Grande.   Esta charrete foi utilizada para transporte de passageiros em viagens entre Arganil/Coimbra e volta, era puxada por 2 cavalos, bestas que eram revezadas em Ponte Mucela, onde a empresa de então tinha uma cocheira para descanso e alimentação dos animais. Tudo isto são coisas que  foram transmitidas boca a boca, quando pertenci a  uma equipa que nos finais dos anos 70 e durant…

Vitorino Nemésio - "guardião" de memórias

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Para os lados de Penacova, no alto da serra da Espinheira, um conjunto de moinhos  traz à memória estórias de lutas imaginárias.   - E veio Dom Quixote, nas asas  da pena de Miguel de Cervantes, sonhar uma qualquer Dulcineia, que deve ter andado por aqui, disse eu para o João...


Mais real, quanto a beleza do lugar, a luta dos moleiros pela sobrevivência, serra acima, serra abaixo, permite recordações de quem as sabe de cor. Por especial razão, Vitorino Nemésio é "guardião" de memórias





“Quem conta um conto, acrescenta um ponto"

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O Moleiro do Barril
Das lendas sobre o Barril (de Alva) que foram passando de boca em boca, escolhemos esta por sugerir alguma coerência.
Reza a história que, existindo este lugar sem denominação conhecida,certo dia, o rio Alva teve grande cheia. Um moleiro, ao reparar que as águas arrastavam barris de vários tamanhos, pegou numa vara e, com ela, conseguiu tirá-los para a margem.
Nesse ano, a produção de vinho foi de tal modo elevada que as pessoas esgotaram o vasilhame e recorreram ao moleiro, com quem fizeram negócio. Por essa razão, passou a ser conhecido pelo "Moleiro do Barril". Diz-se ainda que o dito moleiro tinha três filhas; depois de casarem, ficaram a viver em três locais diferentes: uma no Casal Cimeiro, outra no Casal do Meio e a terceira no Casal Fundeiro, dando origem às povoações da freguesia De concreto, não existe certeza sobre a fundação do lugar. Sabe-se que em 1527 o Cadastro da População do Reino, realizado a mando do rei D. João III, referia que o Barril …

Posso ajudar?

A Mariana trabalhava na Livraria Académica e usava os cabelos compridos. Perdi o conto às visitas que fiz à livraria, na esperança de ser ela a ouvir os meus pedidos de coisas simples: lápis, borrachas, papel cavalinho, aguarelas... Quando não estava necessitado de nada, teimava em continuar cliente de leituras, embora curtas. Foi assim que conheci Mário Sá Carneiro, António Botto, Alves Redol e tantos outros autores portugueses A estratégia era simples: para que a Mariana viesse ter comigo, entrava na loja e ia direitinho à estante das obras menos procuradas. E ela vinha, mesmo depois de se ter apercebido da marosca, com um sorriso malandro. - Posso ajudar? Poder, podia, mas a ajuda necessária não tinha nada a ver com esclarecimentos sobre as obras expostas.Talvez se falasse do tempo que fazia lá fora, do "single" musical em voga ou de qualquer coisa que me fizesse ganhar coragem, eu teria saído do canto da minha timidez e declarava-me... "apaixonado"! A Mariana foi sem…

Tarde de domingo

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O Nokia X3 permitiu esta  imagem quando o sol caminhava para o fim da tarde. Sim, é o Barril de Alva,  que se recomenda.

Urtigal...

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Não tarda, chega a primavera...