quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Urtigal - um pinheiro para guardar a memória dos outros



Há terras que também se fazem dos sonhos de quem nelas viveu.

O Barril de Alva é, para mim, uma dessas terras.

Entre 2009 e 2013, o executivo da então freguesia ainda acreditava que era possível acrescentar alguma coisa ao futuro. Sonhámos alguns melhoramentos para a terra.

A antiga residência dos professores poderia transformar-se em dois apartamentos, segundo o projeto de um conceituado barrilense. O terreno junto ao “Bosque do Cuco”, na zona do cemitério, poderia finalmente ser loteado. E o caminho para o Urtigal poderia transformar-se numa pequena alameda, dando ao lugar uma nova beleza sem lhe retirar a simplicidade.

Com a colaboração de uma entidade privada, plantámos mais de uma dezena de pinheiros.

Eram pequenos, mas representavam um começo.

Uma árvore nunca é apenas aquilo que vemos quando a plantamos. É também a sombra que dará, o abrigo dos pássaros e a paisagem que um dia poderá criar.

Depois veio o incêndio de 2017.

O fogo levou os pinheiros e, com eles, a alameda que tínhamos imaginado.

Mas não levou tudo.

A memória ficou.

Hoje, uma inteligência artificial conseguiu recriar em imagem aquilo que poderia ter sido: uma alameda de pinheiros crescidos, acompanhando o caminho do Urtigal e dando-lhe a sombra e a beleza que um dia imaginámos.

É apenas uma imagem, talvez.

Mas há imagens que nos permitem voltar, por instantes, àquilo que não chegou a acontecer.

Há dias, voltei ao Urtigal. Fui sozinho.

O caminho estava lá, mas já não era exatamente aquele que tínhamos imaginado. Da antiga plantação restava apenas um pinheiro, grande e frondoso, sobrevivente do fogo e dos anos.

Fiquei algum tempo a olhá-lo.

Um só.

Como se tivesse ficado ali para guardar a memória dos outros.


alguém, um dia, teve a coragem de imaginar.

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