quinta-feira, 19 de abril de 2018

Urtigal - apesar de tudo, o verde da esperança


Seis meses depois da catástrofe ambiental, voltei ao Urtigal.
A caminhada estava prometida, de mim para mim, ao jeito de quem vai em romagem de saudade a um pequeno paraíso, agora e ainda com a paisagem pintalgada de matizes castanhos, pretos e cinzentos. O verde, apesar de tudo, voltou em força - sinal de esperança no futuro, que se “reivindica” à mãe Natureza.
O rio, de corpinho bem feito, mas um pouco anafado, acomoda-se no leito e vai apressado - terá as suas razões, o Mondego espera-o em Porto da Raiva.
O som grave da água, quando salta o caneiro, sobressai no palco, que é o Urtigal, mas faltam as “vozes” dos intérpretes das maviosas melodias. Espera-se que a ausência dos passarinhos cantores (sobretudo o rouxinol) seja passageira, como a  nuvem   do Hermes Aquino, o artista/cantor.
Da comunidade residente no rio, o Alva nada diz, guarda segredo; mesmo de cócoras, à beirinha da água, não consegui ver um barbo, por mais pequenote que fosse – eles, como gostam de águas fundas e rápidas, estão camuflados e longe das vistas dos curiosos.
A descer, foi fácil; subir a encosta, nem um pouco. Do alto, durante mais uma curta paragem, fico de frente para o rio, que me parece bem mais apertadinho e pouco apressado na curva, junto à fonte de águas cristalinas, de bica cheia, como se fosse inverno …
Um dia volto, prometo, com a certeza de que, infelizmente,  não será tão breve como desejo o retorno  do Urtigal do passado recente…
Há feridas que o tempo, e alguns pensos rápidos, cicatrizam. Vai faltar-me esse tempo.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Torga - Barril de Alva, ponto de partida





Guardo um dossiê sobre a passagem de Miguel Torga por Arganil, de acordo com os seus “Diários”. 
De autor desconhecido, o texto, recorda o ano de 1942 como sendo o começo da vivência  de Torga por terras do Alva, o rio, com a  Serra do Açor à vista.

É bonito, o Alva! Manso, claro, calado, sem a tragédia do Douro nem a grandeza do Tejo, é bem o rio da Beira, que define a Beira (…) “ - escreveu o poeta e escritor.

O autor da brochura “acompanha” Miguel Torga nos pormenores:
“É esta, efetivamente, a primeira referência de Miguel Torga ao concelho de Arganil, e  representa, certamente, uma sua permanência no Vale do Alva, visto que no Volume II do Diário alude  a uma passagem por Avô, e no regresso a Barril de Alva escreve, no dia 28 de setembro de 1942 o poema com o título “Saudação” (…). A ligação de Miguel Torga ao concelho de Arganil, iniciada em Barril de Alva, vai manter-se, praticamente até ao fim (…).

Saudação
Não sei se comes peixes, ou não comes,
Irmão poeta Guarda-Rios:
Sei que tens o céu nas asas e consomes
A força delas a guardar rios.

É que os rios são água em mocidade
Que quer correr o mundo e conhecer;
E é preciso guardar-lhe a tenra idade,
Que a não venham beber ...

Ave com penas de quem guarda um sonho
Líquido, fresco, doce:
No meu livro te ponho,
E eu no teu rio fosse ...



 Miguel Torga na ponte do Barril de Alva
(gentileza de Paulo Santos)
  
Mais adiante,  o autor desta compilação  histórica refere ” … que a sede do concelho (Arganil) lhe mereceu maior atenção e, por isso, em junho de 1943, Miguel Torga anota no 3º Diário, uma das principais apreciações psicológicas  ao homem da Beira Serra”:                                                                                 
Esta Beira confunde-me. Vejo que há nela qualquer coisa de específico e de seu, que tem grandeza e verdade, quase que vislumbro a coisa nestes pequenos rios que correm sem fúria e nestas serras sem majestade, mas não apanho a verdade toda. Foge-me o fio da meada por entre os xistos das casas  e os xis da língua. Não é desconfiança que reina aqui. É talvez prudência, cautela, o sentimento natural que se tem num chão sem grandes horizontes (…)”.

 (continua)