O chauffeur que recomendava a alma a Nossa Senhora

Retornei ao Piódão com tempo de sobra para múltiplas paragens antes do almoço, que havia de ser servido no hotel, estrategicamente erguido no centro da paisagem repousante.
O dia tinha imenso sol, o que garantia  excelentes cliques do Lumia  – uma espécie híbrida que não consigo definir: máquina fotográfica digital, que também permite usar o telefone, ou o contrário? Para quem "correu" atrás deste aparelho desde o seu nascimento, as funções que tenho à disposição justificaram puxar os cordões à bolsa…
Antes de escolher o que me interessava guardar na memória do meu “híbrido”, confesso, ganhei minutos deliciosos, a mente a navegar pelo “mar” de (muitos) montes e (poucos) vales, imaginação fértil sobre os segredos do Universo, dos que guarda Moura da Serra às lendas do Piódão - a viagem, apesar de curta, foi a mais extensa de todas desde os tempos em que a estrada tinha mais buracos do que piso direito. Hoje existe uma “auto estrada”, que as viaturas agradecem…
Sendo deslumbrante, a paisagem (estou em tratá-la de forma plural para ficar de bem comigo…) assemelha-se a um decrépito jardim de pedra.
A obra do Supremo Arquiteto do Universo, quando me aproximo de um despenhadeiro, permite avaliar a imensidão dos meus medos: se as vertigens aconselham cuidados e prosseguir a viagem em velocidade reduzida, como se comportarão os passageiros (e o condutor!) de um autocarro?
Já no destino, conheci a estória de um profissional dos transportes públicos que, garantiram-me, permanecia em completa paranoia silenciosa sempre que percorria aquela estrada.
…É de crer que o chauffeur, à chegada e à partida, na igreja do Piódão, recomendava a alma a Nossa Senhora.

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