| Na escola do Barril de Alva. Aline é a menina de perfil na primeira fila; eu estou na penúltima, de camisa branca |
| Na escola do Barril de Alva. Aline é a menina de perfil na primeira fila; eu estou na penúltima, de camisa branca |
O livro “Uma Terra
da Beira”, da autoria do nosso bom
amigo Carlos Leal, cuja leitura recomendo, relata com pormenor as vicissitudes da construção da Estrada do
Casal Cimeiro, posteriormente designada por
Rua União e Progresso do Barril de Alva.
*
(…) Até que, no ano de 1951, por altura dos festejos de S. João, se
deslocou ao Barril de Alva uma delegação muito vasta de dirigentes da União e
Progresso do Barril de Alva os quais puderam apreciar no local os problemas que
continuavam a ter os habitantes do Casal Cimeiro no que respeitava às
acessibilidades. Logo ali procuram saber junto dos responsáveis da Junta de
Freguesia qual a disponibilidade financeira que dispunham para a definitiva
conclusão da obra, desta feita com o calcetamento da rua que traria
necessariamente a solução para os muitos problemas. Claro que, como se calcula,
a Junta não tinha dinheiro para mandar cantar um cego quanto mais para fazer
uma obra daquela natureza. Contudo, sabendo que era um melhoramento que não
poderia ser mais adiado, os dirigentes da União e Progresso do Barril de Alva
resolveram levar por diante a execução da obra, mesmo sabendo que os custos
seriam elevadíssimos para os parcos proventos da Coletividade. Mas, se lhes
faltavam os recursos financeiros sobrava-lhes imaginação, o que à partida era
meio caminho andado para a obtenção dos fundos necessários para a consecução da
obra.
Uma grande campanha de angariação de fundos foi iniciada para a qual
utilizaram diversas iniciativas, nomeadamente, almoços de convívio, espetáculos
de variedades, quermesses, peditórios e a receita da quotização dos sócios.
Também dos Barrilenses radicados em Moçambique, na então Lourenço Marques, se
recebeu uma quantia ali angariada que se juntou ao já reunido pelos dirigentes
em Lisboa, Almada e no Barril de Alva e que na totalidade perfazia a quantia de
13.272$00.
Entretanto, tinha-se começado a obra, inicialmente prevista fazer numa
primeira fase que iria do cruzamento do caminho para a Ribeira, ao Casal do
Meio, até às Almas e que incidia, sobretudo, na terraplanagem, alargamento,
levantamento de muros, sistema de drenagem de águas pluviais e calcetamento.
Posteriormente, e dado a recolha de fundos decorrer de forma muito
satisfatória, superando até as melhores expectativas, decidiu-se prolongar os
trabalhos até ao fim, isto é, até à capela da Santa Maria Madalena. Para tal,
recorreu-se a um empreiteiro que com a mão-de-obra local cumpriu rigorosamente
com os prazos que tinha contratado com a Junta de Freguesia que era, oficialmente,
a dona da obra.
No dia 13 de Janeiro de 1952, foi por fim inaugurada a até então denominada
estrada do Casal Cimeiro, que a partir dessa data, por iniciativa da Junta de
Freguesia e com a anuência da Câmara Municipal de Arganil, se passou a designar,
Rua União e Progresso do Barril de Alva. Resta acrescentar, que a obra teve
como custo final a quantia de 11.600$00, sendo que o saldo apurado entre a
receita e a despesa, que perfazia 1.672,00, reverteu para as futuras obras da
Rua do Casal do Meio que começavam já a germinar na cabeça dos dirigentes da
Coletividade.
Como então diria o saudoso AIACO no discurso de inauguração daquela via, alguns daqueles que em 1935 se predispuseram a encetar os primeiros passos daquela obra já não faziam parte dos vivos, porém, era deles boa parte do esforço que fora feito ao longo daqueles anos e que viria a culminar numa das mais simbólicas iniciativas que a União e Progresso do Barril de Alva levou a efeito (…).
Foram estes últimos que fizeram da aldeia um lugar de permanência e influência durante décadas. Contudo, através dos laços matrimoniais, a sua presença e prestígio estenderam-se também às terras vizinhas, nomeadamente Folques e Vila Cova de Alva (antiga Vila Cova de Sub-Avô).
A grandeza do Barril de Alva de outros tempos foi, sem dúvida, reflexo da capacidade económica dos seus promotores, mas também do amor profundo que nutriam pela terra natal. Eram homens com visão, determinados em dotar a sua aldeia de estruturas capazes de garantir melhores condições de vida e um desenvolvimento sociocultural digno.
Esse legado permanece ainda hoje visível: ruas largas e arejadas, fontanários, igreja e capelas, o edifício da escola primária, a Casa do Povo, o cemitério, a sede da Filarmónica, o coreto e as memórias do antigo Cine-Teatro, espaço que durante anos foi palco de cultura e convívio.
A ponte sobre o rio Alva, obra pública financiada pelo Governo e construída entre 1886 e 1888, veio aproximar as duas margens e abrir novos horizontes ao Barril de Alva. A ela juntou-se o emblemático chafariz de granito, com a forma inspirada num pipo, elementos que reforçaram a identidade e a modernidade da aldeia.
A importância alcançada pelo Barril de Alva era evidenciada no panfleto da União e Progresso, publicado aquando do seu terceiro aniversário, em 1938, onde se destacava que “a aldeia está bem servida de acessos e ainda oferece o usufruto da luz elétrica, estação postal, cabine telefónica, de um CINE-TEATRO, concertos da Filarmónica”, entre outros equipamentos e serviços.
Na leitura desse documento encontra-se também, na minha interpretação, o encanto de uma escrita que associa a generosidade da Natureza ao destino privilegiado do Barril de Alva, como se o “divino” tivesse favorecido aquele território ao proporcionar-lhe uma bifurcação de estradas, transformando-o num ponto de passagem e encontro.
A construção do imponente edifício da Filarmónica barrilense resultou de uma verdadeira alquimia de muitas vontades, do esforço coletivo e do espírito associativo que sempre marcou a comunidade. Mais tarde, o Centro de Dia representou a concretização da ambição legítima de um líder carismático da terra, cuja determinação encontrou apoio nos restantes membros dos seus órgãos sociais.
Mas a desertificação da Beira Serra não poupou o Barril de Alva. A população residente envelheceu e muitos dos mais jovens partiram à procura de novas oportunidades. A falta de população ativa teve consequências profundas, refletindo-se também nos cadernos eleitorais e contribuindo para a perda da sua autonomia administrativa em 2013.
Hoje permanecem os desafios de dar nova vida a alguns dos edifícios que testemunham essa história. A Casa do Povo, que integra o património do Centro de Dia, possui ainda espaços com reduzida utilização; a antiga escola primária e a residência dos professores resistem ao tempo através de usos temporários, existindo, contudo, projetos que poderão transformar a antiga residência dos professores em dois apartamentos integrados numa possível rede turística local.
No meio destas dificuldades, destaca-se a sede da Filarmónica, verdadeiro oásis cultural da aldeia, mantendo viva a atividade que esteve na origem da sua fundação, em 1894, e preservando uma das mais importantes marcas da identidade coletiva do Barril de Alva.
Uma terra não se mede apenas pelo número dos seus habitantes, mas também pela força das suas memórias, das suas obras e das pessoas que, ao longo dos tempos, acreditaram nela.
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Nada a dizer das autoridades autárquicas eleitas a partir de 2013: a aldeia manteve os projetos vindos do extinto executivo e outros foram implantados. O facto de existir um barrilense nos sucessivos executivos permitia a sua presença permanente na aldeia, facilitando — e de que maneira! — a gestão do espaço público.
Nas últimas eleições autárquicas, contudo, a regra foi descontinuada.
Sem o poder democrático legitimado num pequeno burgo, senhor do seu destino, que motivações pode ter um modesto e teimoso cidadão — eu! — para permanecer fiel aos seus ideais humanistas, por um lado, e, por outro, continuar a “filosofar” António Gedeão: “Eles não sabem que o sonho / É uma constante da vida / Tão concreta e definida / Como outra coisa qualquer (…)”?
É a utopia dos sonhos, reconhecidamente irrealizáveis, que motiva as minhas ações solitárias e as palavras soltas, como estas: algumas públicas e reivindicativas, outras em jeito de apelo gentil. O hábito de considerar o rifão “não é com vinagre que se apanham moscas” deve ser entendido como uma conduta pacífica e de bem-querer, com o objetivo de “levar a água ao moinho” — isto é, motivar as autoridades autárquicas para determinadas atenções e intervenções da sua responsabilidade. Afinal, os sonhos irrealizáveis são aqueles que não constam do plano orçamental do executivo da Junta de Freguesia.
Por mais que me envaideça o amor pelo Barril de Alva — para mim, “um pedaço de paraíso…” —, existe a consciência de que, para além da presença do rio Alva, da história da aldeia, das vistas desafogadas sobre a serra do Açor, das ruas largas e arejadas, da grandiosidade da Praça Alberto Martins de Carvalho, do edifício da antiga escola, da imponência da sede da Filarmónica e das memórias de alguns palacetes e monumentos de pequeno porte que simbolizam o esforço daqueles que contribuíram para o bem-estar do povo… que mais temos para mostrar e cativar o visitante, principalmente durante o verão?
Ah, o Café “Vira Milho”! Pela sua estética apurada, pela simpatia da Rosa e do João e pelos serviços públicos que prestam, também entra, por direito próprio, nesta short list. Quando os proprietários fecham para férias, a aldeia parece um deserto!
O turismo é uma opção válida se conseguirmos manter os espaços verdes cuidados, a higiene da Área de Serviço para Autocaravanas e de todo o espaço envolvente, as ruas e valetas limpas, as zonas de banhos arrumadas e os acessos seguros…
O executivo da Junta de Freguesia, na verdade, é responsável pela manutenção de um extenso território. Se mais não faz, a “culpa” terá de ser imputada às diversas carências da maioria das autarquias e, quanto a isso… terá de responder o Governo, “onde todos mamam”, segundo a metáfora popular de Bordalo Pinheiro.
Ninguém é lorpa: toda a gente deseja o melhor! Não reclamo para a minha terra os impossíveis, mas, como sou do tempo em que o Barril de Alva era uma terra “arrumadinha” e pedia meças a tantas outras com diferentes riquezas, é isso mesmo que “reivindico”.
É pedir muito?