quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

"De comer e chorar por mais"


Cabrito Recheado à Moda de Barril de Alva

Ingredientes para 8 a 10 pessoas
  • 1 cabrito com cerca de 3 kg (depois de bem arranjado) ;
  • 1,5 dl de azeite ;
  • 1 cabeça de alho grande ;
  • 2 ou 3 cebolas ;
  • 1 colher de chá de colorau ;
  • 250 g de banha ;
  • sal ;
  • pimenta ;
  • noz-moscada ;
  • 1 dl de vinho branco ;
Confecção:
Corta-se a fressura (miudezas) do cabrito em bocadinhos. Pica-se uma cebola e aloura-se com o azeite. Junta-se a fressura e dois dentes de alho picados e deixa-se também refogar. Tempera-se este guisado com sal, pimenta e noz-moscada e borrifa-se com um pouco de vinho branco. Deixa-se cozer.
À parte, num almofariz, pisam-se uns oito dentes de alho com sal grosso, pimenta e colorau. Junta-se um pouco de banha a esta papa e barra-se com ela todo o cabrito, por dentro e por fora.
Em seguida, recheia-se a cavidade abdominal do cabrito com o picado feito com a fressura e coloca-se o cabrito, ajeitando-o, numa assadeira de barro preto de Molelos. Rega-se com um pouco de vinho branco e introduzem-se ainda no tabuleiro alguns quartos de cebola. Espalha-se por cima a restante banha e leva-se o cabrito a assar no forno até ficar bem louro.
Acompanha-se com salada de alface ou de agriões.

fonte: 
Editorial Verbo  

domingo, 6 de janeiro de 2013

O rio Alva

Na serra mais alta de Portugal continental nasce num murmúrio o Rio Alva, que corre devagar e manso a caminho da foz no Rio Mondego, em Porto da Raiva, perto de Penacova, às portas de Coimbra.
O fio de água transforma-se em ribeiro quase à nascente, mas à medida que recebe suores de outras fontes, depressa se assume como rio pujante de vida, sem quedas ou desvios - os que existem são obra do Homem, que desde sempre usou o caudal para seu benefício, dos moinhos de moagem às “rodas de alcatruzes” que, nos estios,durante semanas, noite e dia, despejavam cântaros de seiva nas levadas e estas, serpenteando, alimentavam os milheirais e outras culturas de ocasião.
O trabalho insano das “rodas” proporcionava imagens muito belas e sons característicos dos movimentos em tono dos eixos. Aqui e além, nos tempos de agora, ainda se vislumbram engenhos do estilo, com a funcionalidade de sempre nuns casos, noutros como mera peça decorativa que regala a vista.
O Rio Alva coloca os seus serviços ao dispor das mini – hídricas, a contento de uns e desagrado de outros…
No entanto, o aproveitamento das suas águas e das várias qualidades de peixes que aí encontram o seu habitat natural é, desde sempre, o maior contributo que presta ao Homem.

sábado, 10 de novembro de 2012

Agora, o Alva vai apressado


O "meu" rio vai com pressa de chegar à foz e alarga as fronteiras do território que lhe pertence. Na imagem, há sinais de duas  cheias, paus e folhas amontoadas, como se fossem trilhos conhecidos de outros outonos e agora revividos pela força do pensamento  de quem tem do Alva a memória de outras barrigas, maiores do que estes sinais na erva molhada; tempos houve em que as águas rasgavam as margens - ficavam  os sulcos como sinais  de terra lavrada...

domingo, 28 de outubro de 2012

Sob a batuta do rio Alva

Choveu em demasia e o leito do rio Alva  não suportou o aumento do caudal. Com as águas revoltas e a transbordar vieram os detritos: pedaços de árvores e árvores inteiras, arrancadas pela raiz, lixo renascido da incúria humana, e a imensidão de água tingida de negro.
Tenho à mão dois locais de fácil acesso para olhar o "meu" rio: o Urtigal e a ponte que junta as margens de  duas freguesias: Barril de Alva e Vila Cova de Alva. Durante a calmaria da tarde de sábado, visitei ambos. 
No Urtigal, a água, quando é muita, desmultiplica os sons, aparentemente de forma distinta, consoante os solavancos da corrida que tem a meta no Mondego: primeiro, no caneiro, depois, junto à fonte, quando dobra a altura das pedras que se amontoam na margem direita, a estereofonia é tão real como se os ruidos fossem  misturados numa consola  multipistas a gosto de quem manipula os botões; na ponte, o rio é  manso, embora se perceba  que vai apressado, de barriga cheia...  
Na ponte, visto de cima, o Alva tem outra cor, não veste tanto de negro, mostra tons cinzentos, alguma espuma esbranquiçada. Ali, pela ausência de obstáculos no percurso, os sons  chegam suaves aos meus ouvidos  - nada me diz que tanta água é capaz de arrancar choupos pela raiz, mover rodas de  moinhos, suavizar os seixos, trazer a morte e contribuir para o crescimento dos milheirais que, em tempos, vestiam de verde  as margens, As plantas cresciam alinhadas,  como soldados na parada - agora, os terrenos, na sua maioria, estão vazios de utilidade, sobram os pastos...
Houve tempos em que quatro rodas de alcatruzes, junto à ponte, faziam parte da mesma orquestra, que tinha o rio como maestro, Se afinavam pelo mesmo diapasão, já não é da minha memória - apenas reservo a lembrança de melodias suaves, ao jeito dos lamentos do violino  de Travadinha, um dos maiores músicos de Cabo Verde, ou do clarinete do "ti" Abílio Ribeiro, ilustre  filarmónico da Banda da minha terra...

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Viajar à boleia

Mesmo por cima da minha cabeça, mas  a muitos metros de altura, uns quantos aviões, diariamente,  insistem em percorrer os mesmos caminhos, entre a partida e a chegada; eu estou no "meio"  da  provocação  dos meus sonhos: Açores e Maputo são os  "próximos destinos", mas ninguém os adivinha, e como não tenho maneira de me fazer ouvir daqui de baixo, os aviões nem "param" para a boleia que lhes peço,  dedo grande no ar...



quarta-feira, 18 de julho de 2012

Urtigal: à imagem da minha infância


O meu sítio, Barril de Alva, tem recantos que, fosse eu poeta, havia de imortalizar em palavras nunca somadas em verso, com ou sem rima - bastaria que, em mim, houvesse engenho e arte para transformar o belo do pensamento, impossível de publicar...
O Urtigal exerce tal fascínio que me transporta aos silêncios de quando me sinto solitário, voluntariamente abandonado. Aqui, no Urtigal, nem solidão, nem abandono: basta o rio que me remete para curtas memórias da infância, feitas de fantasmas e medos. 
O rio, o "meu rio", sempre de barriga cheia, nesse tempo, tinha barulhos inexplicáveis. É por isso que "pinto" o caneiro" e construo a "mesa do pensamento" à imagem da minha infância. Possivelmente, contínuo criança...

sábado, 12 de maio de 2012

Coimbra "nunca vista"

 Imagine-se um "puto", após dois exames semelhantes, da quarta classe e da admissão ao liceu, ir de abalada até Coimbra sem nunca ter saído da aldeia; isto é: os meus  passeios, de tão curtos no tempo, não proporcionavam grandes conhecimentos das coisas  e dos lugares- passeios desses  contabilizei vários, incluindo um a Viana do Castelo, por ocasião das Festas do Senhor da Agonia. 
E tinha ido a Lisboa em tempo indeterminado na minha memória...
Coimbra  era um  sonho do meu tamanho, pequeno, sem dúvida, mas não deixava de ter a importância da ideia que alguns companheiros das brincadeiras do arco, do pião ou dos futebois no largo da escola, fizeram florir enquanto crescia na idade. Coimbra, aqui tão perto, enfim, era o tudo do muito que sabia existir pela leitura das brochuras publicitárias. 
Coimbra era a Universidade, o liceu, a escola técnica - destinos certos para quem, com posses económicas, procurava  fontes do conhecimento. E havia o Seminário, que transformava meninos em homens vestidos de preto, bem falantes, como o padre Januário,  que ao domingo, dizia a missa numa linguagem  imperceptível, menos o discurso sobre regras e boas maneiras, em nome de Deus e dos  Santos. Eu, confesso, sentia alguma atracção pelo sacerdócio, ao estilo do padre Januário, mas preferia desenhar, pintar, retratar,  como tentei certa vez ao reproduzir o rosto da avó Virgínia no papel; a boa vontade de quem olhava, afiançava semelhanças...
Finalmente, Coimbra!
Primeiro, uma visita rápida à casa situada na rua João Jacinto, ao Quebra Costas, para conhecer as pessoas com quem iria partilhar o meu novo tempo de estudante, após registo no liceu  D. .João III, depois a viagem definitiva para o desconhecido. Entre idas e vindas periódicas à aldeia, durante  o ano lectivo,  armazenei  aprendizagem quanto baste  para me apaixonar pela cidade e estilo de vida dos estudantes.
... E havia o campo de futebol, bem junto ao jardim da Sereia, o Santa Cruz, para onde corria sempre que  a ausência de um ou outro professor  o permitia; se havia jogo combinado, fazia gazeta às aulas!
Na casa ao lado daquela onde morava havia um lar de raparigas, das crescidas, adiantadas nos estudos. Certa noite, acordei com o som das guitarras; depois, uma voz timbrada  de homem feito trouxe aos meus ouvidos estranha melodia . 
Foi então que descobri Coimbra nunca vista pelos olhos da alma de um "puto"de dez anos, nascido e criado na  aldeia...