segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Por causa do frio...

Fora de portas, a noite fria do Natal não convidou a saídas, nem para cumprir a tradição de ficar à conversa em redor do “cepo”, no largo da escola.
Possivelmente, o frio, arrefeceu a vontade da “malta” e ninguém teve apetite para carregar "combustível" suficiente; houve “cepo”, sim, mas ardeu num ápice…
Culpa-se, ainda, o frio pela ausência dos nossos conterrâneos ausentes. Os que vieram, ficaram em bom recato, junto às lareiras – mal se deixaram ver, nem à hora da bica, depois do almoço, logo ontem, que foi domingo…

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Plátanos: é pena que não “falem”…



Terei os meus motivos para gostar do Outono, embora os desconheça. Talvez as folhas caducas exerçam sobre a minha sensibilidade algum efeito estético – de outro modo, como poderei explicar a minha atracção pelas folhas amarelecidas? Se o chão está atapetado com exemplares do tamanho da palma da minha mão, ou maiores, gosto de os pisar sem pressas, atento à surpresa de um encontro com o mais bonito. Difícil é a escolha - são todos agradáveis à vista!
Os passeios solitários sobre as folhas dos plátanos descansam-me o pensamento das coisas menos agradáveis; agora, preocupo-me com o futuro da aldeia onde nasci. Ainda que reconheça que a minha freguesia estagnou por razões que me dispenso de esmiuçar, tenho alguma dificuldade em aceitar as regras que, segundo o “Documento Verde”, lhe vão retirar o seu estatuto autárquico.
Estou junto à ponte que atravessa o rio Alva. Do lado de lá, começa outra freguesia, de onde nos separámos há oitenta e oito anos. A minha aldeia, desde 1888, ano da inauguração da ponte, cresceu de tal modo que suplantou a vila; emancipou-se e mostrou vontade de “caminhar o seu próprio caminho”. Assim o entendeu o povo, o Governo da época aceitou a separação das duas povoações, e o resto pertence à História…
Aqui, os plátanos são testemunhos vivos das quezílias entre os residentes de ambos os lados da “fronteira”. É pena que não “falem”…

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Fernando Pessoa -"árbitro"







Depois da assembleia da sexta feira passada, em que o povo votou a favor da integração do Barril de Alva na freguesia de Coja, devo assumir-me como "filho adoptivo" desta vila? Sendo barrilense (pela nascença), arganilense, português e  "moçambicano", começa a ser difícil o enquadramento do (meu) amor - a não ser que a mente cumpra à letra a frase de Fernando Pessoa: "A minha Pátria é a língua Portuguesa"...
Se calhar, é um exagero "chamar" Fernando Pessoa para arbitrar a minha consciência, mas é a solução que me parece mais  sincera ( digo eu, de mim para mim...).

sábado, 8 de outubro de 2011

O "estádio" do Artur


Passei  pelo sítio onde imaginei esta croniqueta, publicada no "Correio da Beira Serra" em 13 de Maio de 2009. Agora,  sem as balizas, o "estádio" é um extenso milheiral. 








Aninhado no sopé do monte, o rectângulo não deve ultrapassar os cinquenta metros quadrados.
Em cada canto, uma estaca delimita o espaço. E há duas estruturas de madeira erguidas ao alto, a “fazerem” de balizas, porque é de um “estádio” que se trata, na imaginação do pequeno Artur, quatro anos de gente…
Nota-se que o “ervado” merece cuidados técnicos, mas não há marcações, e o “penálti”, se o houver, é para cobrar mais ou menos a meia dúzia de passos da imaginária linha de baliza. Certamente, o Artur, o primo João, bastante mais crescido (vai nas treze primaveras), e o Paulo, pai do Artur, não se importam mesmo nada com as “faltas”; árbitro também não deve haver, por isso, vamos ao jogo!
A bola está à espera – já lá estava, szinha e “triste”, quando a descobrimos no “estádio vazio”, meia escondida pela “relva” – faltam os atletas e o público, possivelmente reduzido à mãe do Artur, se os afazeres lá por casa estiverem de folga.
Convém que as duas equipas tenham número igual de jogadores; à hora do jogo, devem surgir mais uns quantos amigos e então sim: começa a partida!...
… Talvez nada aconteça como imagino, e tudo não passe de uma brincadeira familiar, sempre se exercitam os músculos e o Artur dá asas ao sonho de chutar a bola num campo a sério, com balizas e tudo!...
Hoje, de manhã, li um excelente trabalho sobre o negócio das escolas de futebol, onde se realça o facto dos miúdos pagarem (os pais por eles…) determinada verba para aprenderem os truques do jogo; à tarde dei de caras com este “campinho”, quase à beira da estrada de quem vai de Vila Cova de Alva a caminho de Avô, um pouco antes da saída para Anseriz. À falta de estruturas desportivas por estas bandas, onde as crianças se entretenham nos tempos livres, a arte e o engenho de quem aproveitou determinado espaço e o adaptou a “campo de jogo” não podia ficar sem a devida nota…
O escrito sobre as escolas de futebol, a que tive acesso, deixa no ar uma questão pertinente: quem não tem disponibilidade económica, não pode ter um filho a aprender o abecedário da modalidade?
Uma bola feita a partir de uma meia, cheia de folhas de jornal, é memória dos mais antigos; o jogo acontecia onde muito bem calhava, as pastas da escola faziam de baliza, e gritava-se goooooooooolo com o mesmo entusiasmo com que se ouve nos grandes estádios! Nasceram grandes jogadores nessas partidinhas de fim de tarde ou durante o tempo de recreio na escola…
Desconheço se o menino Artur, que “treina” num campinho à porta de casa, procura imitar as fintas e remates do seu ídolo; se há admiração, por exemplo, pelo Cristiano Ronaldo, é bom que saiba, daqui a uns tempos, quais foram os princípios do seu “herói” na prática do jogo da bola.
Já agora, ainda lhe digo que o “grande” Eusébio chutava descalço durante as intermináveis partidas que tinham lugar na terra batida e poeirenta da Mafalala, em Moçambique, e nem por isso deixou de chegar onde chegou…
Que o jogo comece lá para as bandas de Anseriz, sem árbitro nem marcações no “relvado” – desde que a bola “pule e avance”, os sonhos são todos dele, do Artur, o dono “estádio”!
“Bora” lá, Artur, chuta-me essa bola, que o guarda-redes “estás de costas”!
Goooooooooolo!!!
Carlos Alberto (Vilaça)

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

De "volta à minha terra"


A nostalgia tem nome: Moçambique!
Foi naquele país, decorado por deuses de múltiplas facetas estéticas, que me descobri como homem; aí cresci e quase completava determinado cíclo da minha existência quando valores mais altos se levantaram e retornei à "minha" serra e à casa onde nasci, longe do Atlântico.
Na falta de ondas e marés e sem correntes de feição, recorro à ciência para estar mais perto das razões da saudade. Os sons chegam do outro lado do mundo...
Ao serão tive companhia de elevado grau e qualidade - do locutor de serviço ao homem da técnica, de Villaret a Manuel Alegre, de Pedro Abrunhosa à "ELisa Gomara Saia", interpretado, o tema, por voz genuína, sem trejeitos...
- Um clique e "chego a casa", penso!
 Marco um número no telefone e espero dois, três segundos:
 - Bom dia, fala da Rádio Moçambique...
...
...Eram quatro da madrugada na "minha terra"!