terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Croniqueta

Rir faz bem à saúde

Os tempos vão maus, demasiado maus, queixamo-nos em grupo, carpimos mágoas, unidos, juntinhos, como os pinguins no Árctico para suportar melhor as tempestades.
Os sorrisos são quase nenhuns, vive-se, sobrevive-se, não há humor de gargalhar, nem na TV; para além do  Herman José, sobram  graças do Fernando Mendes no “Preço Certo” –  é pouco.
Não somos um povo alegre, mesmo no Carnaval “abrasileirado”, que está por dias, mas temos queda para associar estórias ao anedotário nacional, mesmo agora, em tempos de crise. Valha-nos isso!
O meu amigo alentejano Davide (com "e" no fim…), com sotaque a preceito, é excelente contador de anedotas; algumas têm “barbas”, mas como faz a festa por inteiro, do princípio ao fim, sempre a rir e com gestos largos (é um homem sem “crises” - será?), as piadas cheiram a novo. O jeitinho para actor é inato; se eu “mandasse”, fazia do Davide um profissional à altura da melhor concorrência do Stand Up Comedy nacional!...
Não é por nada – minto, é por causa das crises! – mas estamos necessitados de sessões de humor que aliviem a penúria da tristeza, mas não há volta a dar ao estado dos sorrisos. Convenhamos, em suma, que rir faz bem à saúde e, li há pouco, pode ajudar a curar certas doenças e aumentar a esperança média de vida, o que é óptimo, a não ser que a pessoa com vontade de viver mais uns anitos esteja às portas da reforma; nesse caso, fique a saber que os pensionistas vão perder um quinto da dita (reforma) até 2050 – quanto maior for a esperança média de vida, menor será o valor da reforma!
Perante factos, quem tem vontade de sorrir, rir ou gargalhar?
Nada a fazer, é assim” e… pronto.
Resta o exercício de “estar vivo”, que, só por si, já é uma “dificuldade” que nem sempre temos capacidade para gerir a contento.
…Com urgência, tenho de localizar o meu amigo da Amareleja!
...
 Adaptação da crónica: " O amigo alentejano" - in "Correio da Beira Serra" - Janeiro/09

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Estórias antigas

Os filósofos da bica e alguns “entendidos da matéria”, entre duas “imperiais”, especulam de forma brejeira (sem necessidade, digo eu…) sobre a idade de cada conviva, e não é de admirar um “puto de quarenta” dizer a outro, na mesma faixa etária, que está a ficar “velho”, ou já lá mora, quando ela, a velhice, se faz anunciar com uma simples e fugaz enxaqueca, por exemplo, ou se determinado “jovem” assume cansaço físico depois de uma noite de pândega. (Há indícios bem mais aborrecidos, e desses quero distância, nem os “enuncio”!).

Depois, há sempre um ou outro, de conversa mais séria na aparência (rosto fechado, voz timbrada, palavras eruditas…), que afirma ser a velhice coisa natural! Um deles chegou a encadear uma ladainha, que começou na concepção da vida e terminou…na “terceira idade”.

Na verdade, a contagem decrescente pode ser contabilizada a partir do momento da fecundação, mas imaginar uma criança daí a uns bons e largos anos, no tempo do ocaso da sua existência, não é ideia que se tenha, sobretudo quando os mais pequenos nos brindam com gestos de inocência e/ou palavras de excelsa ternura, deduções lógicas e inteligentes na curiosidade – momentos de espanto e admiração que guardamos na caixinha das memórias como autênticas relíquias.

A Margarida contou-me que o infante Guilherme só come peixe se este lhe aparecer no prato, inteiro, da cabeça ao rabo; de resto recusa-se a ingerir qualquer posta de “peixe mutilado”, que é como quem diz, na sua imaginação, retalhado aos pedaços, grandes ou pequenos. Mas do que o Guilherme não gosta mesmo nada é de “morangos mortos”, ou seja:   iogurtes onde apareçam bocadinhos daquele fruto.

Uma vez, um dos meus filhos, o Carlo, resolveu semear um caroço de laranja num dos vasos com plantas, que ornamentavam a entrada do prédio onde habitávamos; a sua maior preocupação era, no futuro, o crescimento da árvore e os frutos que haviam de nascer; certamente os vizinhos iriam “roubar as suas laranjas” , e isso não admitia!...

Enfim, “estórias” que Fernando Pessoa por certo quis retratar de forma sublime quando escreveu que o “melhor do mundo são as crianças”!

“Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças…”- disse ele.

(...)19.03.09 / Ritualidades

terça-feira, 9 de novembro de 2010

UM DIA (QUASE) PERFEITO

"...À sobremesa, fez-se silêncio porque o som de vinte e poucos talentosos intérpretes muito jovens - o maestro idem - era fantástico, harmoniosamente perfeito..."
Sendo Domingo, acordei cedo, repousado e  bem-disposto. Se vieram sonhos, ficaram na almofada, que continua silenciosa – melhor assim nas noites dos pesadelos, hoje não se justifica que fique muda, digo de mim para mim.
Desço à cozinha, o café acabado de fazer tem o sabor das variedades Arábica e Robusta, segundo o rótulo. O cheiro intenso agrada-me; bebo o bastante para acompanhar duas torradas.
Volto ao 1º andar, preparo um banho bem quente, coloco o chuveiro a jeito e “mergulho” em dezenas de fios de água!
O rádio portátil, peça indispensável de todas a manhãs, dá-me música sem palavras. Gosto da melodia que vem do solo do piano, a  sobressair de outros sons…
Apresso-me com a roupa. Coisa rara: hoje usarei gravata!
Volto a descer as escadas. Na mesa da cozinha, uma rosa em botão e um cravo cor de vinho tinto. A mãe, com sacrifício no andar, abeirou-se das plantas que insistem em brindar-nos no Outono com flores e colheu duas: a rosa cor-de-rosa e o cravo cor de vinho tinto.
Beijei a mãe Natália – parabéns, disse eu, por ser mãe, mas quem acrescentava mais um ano aos restantes era eu. Quantos? Muitos! Sorrimos os dois…
Havia festa na Banda do Barril de Alva, que comemorava 116 anos! O almoço prometia ser surpresa, não pela ementa, mas pelo modo como seria confeccionado: os ingredientes  colocados em panelas de ferro e estas no lume da fogueira, à "moda antiga", do tempo em que poucos possuiam fogões a gás …
Centena e meia de pessoas - para mais, não para menos! – e eu na lista dos convidados pela inerência de um cargo público que tento desempenhar na medida das minhas virtudes; sendo poucas, faço o que posso (lá vem a lembrança de Torga: "quem faz o que pode, faz o que deve"...).
Canja de galinha e  cozido à portuguesa. Confirmam-se os dizeres das cozinheiras: comida assim, só no tempo dos nossos avós e aqui na Beira Serra, que é onde melhor se misturam os paladares da canja, do cozido, do arroz doce, da tigelada, do cabrito “à moda do Barril de Alva” (procurem no Google…), do bucho “à moda de Vila Cova” e mais e mais…
Vinho da região, não aprecio. O Armando  trouxe um “alentejano de 1985” de estalo! Se a garrafa tivesse sido aberta pelo menos uma horinha antes… – comentei para a vereadora da cultura, sentada à minha direita. Bebericámos o suficiente, nem de mais nem de menos. Na hora dos discursos, cada um deu o seu recado, seguros e aprumados nas palavras.
 No palco, por detrás das cortinas, os músicos da FILARMONIA de Lobão, Santa Maria da Feira, afinavam os instrumentos de forma suave…
À sobremesa, fez-se silêncio porque o som de vinte e poucos talentosos intérpretes muito jovens - o maestro idem - era fantástico, harmoniosamente perfeito.
Entre outros estilos, peças musicais dos grandes mestres do jazz e dos blues – como se fosse num sonho e num outro sítio, do outro lado do mundo!
 ”My Way”! Só falta o Frank Sinatra para adoçar ainda mais a melodia – comentei com a doutora Paula Dinis, que continuava sentada à minha direita, tão embevecida quanto eu com o concerto…
A meio da tarde, pensei que o dia de Domingo seria magistral… antes de acabar!
Erro meu, ”má fortuna” nos meus desejos, cilindrados por cinco golos de um dragão que chispa labaredas.
… Não fora isso e o meu dia de domingo tinha sido… quase perfeito.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

"Amola-tesouras"






Um dia destes, em Coja, deparei com uma das minhas memórias de menino.Fica a imagem do "Nokia" como registo do momento solene de uma "gaitada" enquanto não chegavam os clientes...




sábado, 16 de outubro de 2010

Por favor, sorriam...

 Em Maio de 2008 "roubei" esta delícia  de texto e publiquei-o   no "Ritual".
- Por favor, sorriam e... comentem!
                                                                                                                                  ....
"Eu axo q os alunos n devem d xumbar qd n vam á escola. Pq o aluno tb tem direitos e se n vai á escola latrá os seus motivos pq isto tb é perciso ver q á razões qd um aluno não vai á escola. primeiros a peçoa n se sente motivada pq axa q a escola e a iducação estam uma beca sobre alurizadas.
Valáver, o q é q intereça a um bacano se o quelima de trásosmontes é munto montanhoso? ou se a ecuação é exdruxula ou alcalina? ou cuantas estrofes tem um cuadrado? ou se um angulo é paleolitico ou espongiforme? Hã? E ópois os setores ainda xutam preguntas parvas tipo cuantos cantos tem 'os lesiades', q é um livro xato e q n foi escrevido c/ palavras normais mas q no aspequeto é como outro qq e só pode ter 4 cantos comós outros, daaaah. Ás veses o pipol ainda tenta tar cos abanos em on, mas os bitaites dos profes até dam gomitos e a malta re-sentesse, outro dia um arrotou q os jovens n tem abitos de leitura e q a malta n sabemos ler nem escrever e a sorte do gimbras foi q ele h-xoce bué da rapido e só o 'garra de lin-chao' é q conceguiu assertar lhe com um sapato. Atão agora aviamos de ler tudo qt é livro desde o Camóes até á idade média e por aí fora, qués ver??? O pipol tem é q aprender cenas q intressam como na minha escola q á um curço de otelaria e a malta aprendemos a faser lã pereias e ovos mois e piças de xicolate q são assim tipo as pecialidades da rejião e ópois pudemos ganhar um gravetame do camandro. Ah poizé. tarei a inzajerar?"



domingo, 10 de outubro de 2010

Outono com cores de Primavera

Acordei cedo depois de uma noite com chuva intensa.Olhei pela janela e vi as cores do arco íris mais brilhantes.Decidi sair e participar da festa.
O "meu" rio vai grosso, negro e mal cheiroso; no Urtigal, arrancou a ponte das costuras
 e deixou um vazio na paisagem - apenas um contratempo, não um problema - na próxima Primavera, voltará a passagem para a outra margem ( há sempre uma primavera no outono de cada um de nós e uma passagem para a outra margem...).
Por agora, sobram os medronhos e as bolinhas de chuva a enfeitar as folhas das árvores... porque é outono,  com cores de primavera.