sábado, 29 de maio de 2010

Como se fossem dois adolescentes

Volto ao "Ritual" de muitas memórias, como esta, autêntica,
que conto vezes sem conta,
como se fosse um conto
que se conta
sem acrescentar um ponto.
A meio da tarde, no bar, havia mesas livres; o casal entrou, escolheu uma delas, olharam os dois em redor e, instalados, pediram que lhe servisse duas bebidas.
Os olhares perdiam-se pelas paredes, onde estavam exposta pinturas do Wild de Wildt, Rui Monteiro e Alberto Péssimo; a. música ambiente aconchegava o sossego do momento e o tom das suas vozes era suave.
Tocou um telemóvel, a senhora atendeu, levantou apenas um pouco a voz e falou em francês, expedita, de forma alegre. Repetiu por três vezes merci, e continuou, veloz, na articulação das palavras – sinal de que, para si, a língua de Nicolas Sarkozy lhe era familiar…
O cavalheiro, entretanto, inquire sobre o espaço: é público, não? Respondo afirmativamente. Sabe, acrescenta, como tem um estilo completamente diferente do habitual, a minha esposa deduziu que fosse um “clube privado”. Em traços largos, explico que o comércio das bebidas era um pretexto para algumas actividades culturais - a exposição que tinham à sua frente era um exemplo disso mesmo.
Terminada a conversa, foi a vez da senhora parabenizar os autores das obras expostas e quem tivera o arrojo de colocar de pé o espaço como se apresenta.
Agradeci a generosidade do que foi dito.
Pergunto se estão de férias por estas paragens. Responde a senhora: de férias já estamos há imenso tempo, somos reformados, e viemos de Leiria passar uns dias a esta região, que desconhecíamos em absoluto, pernoitamos na Pousada do Convento do Desagravo e durante o dia damos uns passeios por aí. É muito lindo, tudo aqui à volta, a serra, tudo!
O encantamento do olhar, transmitia alegria, satisfação, prazer, felicidade na forma mais pura – que sei eu desse sublime sentimento?
Sempre de sorriso nos lábios, desenhados num rosto de enorme beleza, disse ao que vieram em concreto, desvendou o segredo, enquanto o marido, talvez um pouco envergonhado, olhava terno e meigo a “jovem” e bonita esposa: faço hoje oitenta anos, e o meu marido presenteou-me com este magnífico passeio.
Oitenta?
Não, não imaginava aquela figura esbelta, meã na altura e aspecto prazenteiro com uma mão cheia de “viçosas primaveras”, muito próxima do centenário que, acrescentei, por certo irá comemorar…
Pedi licença por breves segundos, saí, fui à florista Clara, logo na esquina, comprei uma rosa (que não paguei, por que a Clara conhece de longe o meu “vício” por flores e partilha comigo a sensibilidade do belo, e volta não volta tem destas delicadezas…), e com o meu melhor sorriso ofereci-a à bonita senhora – apenas uma lembrança com que procurei honrar o seu aniversário e o amor do casal
…Fiquei com a sensação de que a rosa vermelha “ganhou vida própria” e um “rosto” – “um dos olhinhos sorriu, atirou-me uma piscadela” e eu fiquei a ver o casal, de mão dada, rua acima, como se fossem dois adolescentes apaixonados.

sábado, 8 de maio de 2010

Exposição de Pinturas

De 6 a 28 deste mês, Octávio da Cruz Rodrigues, barrilense pelo coração, definido no catálogo como "... um pintor de raizes populares, um autodidacta que divide a sua arte entre o desenho, aguarela e pintura a óleo, tendo nesta última a sua grande paixão...", expõe na Sala Guilherme Filipe, no Museu de Arganil, vinte uma obras, entre acrílicos e óleos, a merecerem especial atenção, sobretudo dos barrilenses ...

A arte de Octávio Rodrigues retrata com mestria algumas figuras da nossa freguesia, sítios e monumentos. A exposição, initulada "Da Beira-Mar à Beira Serra", é uma "junção das duas partes da vida do artista, que encontrou no Barril de Alva e nas suas populações uma fonte de inspiração inesgotável..." - refere a brochura da exposição.

Brevemente, o artista fará uma mostra da sua arte na "Sala Multiusos", na nossa Freguesia.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

“Boas festas”

Os primeiros dias deste ano foram uma chatice, a começar pela digestão dos restos dos abusos da noite de 31 de Dezembro, e acabar na retribuição atrasada dos beijinhos e abraços, acompanhados dos inseparáveis desejos de “boas festas” e “feliz ano”.
Chatas, digo eu, são essas dezenas de mensagens electrónicas, quase sempre com os mesmos dizeres, gémeas de outras tantas, recebidas uns dias antes pelo Natal. Nada a fazer (a não ser desligar o telemóvel, e é o que farei para o ano – está prometido!), o hábito está criado; a saudade dos cartões de “boas festas” ainda não é total, mas para lá caminha. Por acaso (só por acaso?), dos mais chegados e conhecidos, não recebi sequer um cartãozinho como amostra, paciência. Isto é bom, ou mau, sinal dos tempos de agora?

Este ano (sim, já em 2010. … e antes do Natal, também!) abusei da perda voluntária da memória e não houve “boas festas” para ninguém, à excepção, claro, das vezes em que fui obrigado a entoar a cantilena quando me cruzava com as boas maneiras na ponta da língua de alguém, até no supermercado, onde as meninas das caixas estavam travestidas de “mãe natal”. Pobre das pequenas, ao que são obrigadas, em nome de uma tradição americana, embora dos livros não conste que o “pai natal” tivesse companheira, “mãe de tantos filhos”…

Como não me apeteceu brincar ao natal (as couves e as batatas com bacalhau pertencem a outra estória, porque me lambuzo - salvo seja - com frequência com a receita, e não apenas para cumprir a tradição), ocupei estes dias com a leitura de duas obras que tinha à cabeceira. Não fui até ao fim, mas adiantei os marcadores das páginas, o que não é nada mau.

Portanto, “Rio das Flores”, do Miguel Sousa Tavares, já vai para lá do meio, “O Último Bandeirante”, do Pedro Pinto, está quase no fim, e para que não digam que fiquei por aqui, ainda fui a tempo de ler, de fio a pavio, “O Apicultor”, de Maxence Fermine, e da “Palavra Mágica”, do Rui Zink, falta devorar uma das suas crónicas, o que é óptimo para quem passa horas a  a ler jornais e a “postar” em três blogues, o que me dá algum gozo, confesso, porque posso armar-me em escritor e/ou poeta no anonimato, ou nem por isso, e…sempre aparece alguém por lá que me alimenta o ego com recados de parabéns! (“Brigadinho” a tanta simpatia…).

Foi o que aconteceu nestes últimos dias: meia dúzia de comentários gentis, “agravados” com votos de “boas festas e um 2010 cheio de coisas boas, edecetra” e tal – como é costume – e eu, mesmo assim, mantive-me a “leste do Natal”…

…Pensando bem, ninguém tem culpa do meu mau humor, a ponto de fugir do Natal, como se ele fosse coisa má, e não é, pelo contrário – bem vi como se comportaram as crianças do Barril (o meu sítio de todas as horas) em Óbidos, a “Vila Natal” por uns tempos. A felicidade que traziam nos olhitos, na viagem de regresso, devolveu-me o encanto da época, quando também era criança. Abençoadas sejam todas elas, as crianças, por muitos anos e bons. Para o ano vou enfileirar ao lado dos felizardos que “acreditam” no pai natal, e distribuir “boas festas” a toda a gente – fica (também) prometido!

Afinal de contas, não custa nada sonhar com um velhote vestido de vermelho, com barbas brancas, gnomos, fadas, renas voadoras e tudo o mais… quando se tem imaginação fértil, como as crianças.

Quanto às mensagens electrónicas, gémeas das que recebi este ano, isso é um caso a ver depois de ligar o telemóvel…

sábado, 2 de janeiro de 2010

Espectacular!

A Rosa Maria é senhora de várias sensibilidades.No que à fotografia diz respeito, fica o exemplo de  um "clique" fantástico, ainda 2010 era uma criança...
Para que conste: a imagem foi recolhida no Barril de Alva!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Talvez por ser Natal...

Numa croniqueta como esta, sem pretensões, os temas nem sempre são actuais – depende para que lado corre o vento e do momento em que me disponho a alinhar as palavras.

Hoje, por exemplo, o sol entra pela janela, pisca os olhitos por entre as nuvens, e boceja - sinal de que se prepara para adormecer. Como o tempo está em sossego, melhor assim, apetece-me participar no Natal, escrevendo...

As manifestações de uma festa Universal como esta têm várias leituras. Fico-me por aquela que mais toca os sentimentos solidários de quem, nesta época, desenvolve acção meritória junto dos mais necessitados, embora me falte o termo certo para enaltecer, com rigor, o espírito de amor que leva pessoas a alguns sacrifícios, com o intuito de aliviar momentaneamente o sofrimento do seu semelhante.

Assim sendo, sinto-me culpado por não proporcionar um Natal mais quentinho (talvez menos molhado) a certa família, cuja habitação necessita com urgência de um telhado novo. Faço do silêncio “mea culpa” em letra de forma, mas nem assim alivio a consciência, que pesa “toneladas”...

Arrasto mais dois amigos, ainda em silêncio, e partilho com eles todo esse peso/pesado, mas não assobio para o lado, como se o assunto fosse desconhecido dos três. Hoje à tarde, no café, “li” no olhar da dona da casa alguma tristeza. A ausência do sorriso costumeiro, que acompanha a salvação, ausentou-se para parte incerta e, claro, a minha consciência ficou pintalgada com tons de cinzento. Acabei por me “refugiar” no alívio da lembrança de um momento idílico, onde interveio o “Fota” (que estava de saída do café) e a “jasmim”...

Pela pressa com que acelerou a sua “motoreta”, o “Fota” devia estar atrasado na ronda à quinta do “outro lado do rio”, onde a “ruça”, a “mulata”, a “jasmim”e o “chico”, entre outros caprinos com nome de gente, andam à solta, felizes e contentes da vida, no meio do cercado que os protege de uma fatídica queda nas águas do Alva, e/ ou se afastem dos domínios que lhes estão reservados.

O “Fota” é, diga-se de passagem, “engenhocas” conceituado na região, astuto, e com conhecimentos empíricos acima da média; de voz forte e timbrada, ninguém diria que “trava diálogo” com os seus animais de forma comovente – mas é o que acontece, como tive ocasião de constatar!

Subi a rua, ainda com a imagem do “cumprimento” entre a “benjamim” e o “Fota” na mente, mas a ausência do sorriso da dona da casa, que necessita de um telhado novo, não me dava descanso, talvez por ser Natal, digo eu...