O guião de um "filme de terror"
(imagem surripiada na net)

Cá em casa parou tudo - o Primeiro-ministro foi atentamente escutado e atentamente apreciado. Como se fez silêncio, deixei de mastigar a salsicha, eroticamente colocada no meio do papo-seco, com uma pitada de mostarda para dar gosto, e a mãe Natália silenciou de olhos fechados, dormitou, embora diga que é a mais pura das mentiras quando a confronto com o “pequeno” ruído que lhe sobe pela garganta - “eu, a dormir? é mentira, estava a descansar os olhos”. Pois, “olhava para dentro” – atalho com o humor do momento. Hoje, a meio da salsicha (já agora, e do copito do tinto!), à hora do telejornal, o meu humor era cinzento, nada simpático – nem para a mãe, que “descansava os olhos” e não ouviu pitada do discurso do Primeiro-ministro; foi por isso que a questionei sobre a sua audição, que é óptima, garantiu, mas hoje não esteve “ concentrada” – se fosse o “Preço Certo”, ou o Malato, garanto que nem pestanejava, ouvia tudo, tudo, como se estivesse no estúdio. “ O que é que ele disse?, cortam-me a reforma?” “Não, mãe, não lhe cortam a reforma, se calhar ainda lhe acrescentam uns cêntimos, vai ver”. A mãe calou-se e sossegou. Mastiguei o resto da salsicha e do papo-seco, bebi o vinho, e continuei no meu silêncio a apreciar o Primeiro-ministro, seguro de si, excepto uma ou outra vez, talvez por lhe ter secado a garganta – será que não havia por ali uma alma caridosa que lhe servisse um copinho com água? Um quarto de hora de fala ininterrupta, não é para todos, meus amigos! O penteado do Primeiro-ministro esteve seguríssimo, graças à laca, gel ou brilhantina, por isso não teve ocasião de usar um dos seus tiques preferidos quando uma madeixa teima em tapar-lhe um pouco da testa. Sobre o Orçamento, devo confessar que, apesar de estar atento ao discurso, para não cair em nenhum buraco, fiz vários desvios: cruzei e descruzei as pernas, atendi o telemóvel, acomodei-me várias vezes no sofá, e só à saída de cena do Primeiro-ministro é que me apercebi do guião do “filme de terror”, que chegava ao fim! Como detesto fitas deste género, para a próxima faço como a mãe Natália, com as suas 85 primaveras: “descanso os olhos”.
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